Entre o que Há

Olhei pra ela de frente pra fogueira e não pude deixar de pensar que toda mulher tem sua hora marcada com o fogo. Vendo minha irmã entregar os animais às cinzas entendi o que em mim precisava transmutar. Deixei meu apêndice nas chamas, ouvindo dela que é preciso ressignificar as vivências, reorganizar os órgãos. Fez sentido, senti no corpo o que não significava mais . Juntei lenha e folhas secas, com toda calma construí meu vulcão. Acendi e a quem interessasse anunciei:

Já não importa o porquê das escolhas que trouxeram o vazio, importa aceitar abrir mão delas. Importa meu desejo por flores, pedras e banquetes, importa não aceitar mais migalhas.

Comprometimento.

Essa é a palavra de ordem.

Ordeno a mim o compromisso de realizar meus propósitos, de alcançar minhas graças, de comungar com o sol. Ordeno a mim que respeite minhas luas, que me admire e ame  bem como sou, que me acolha e me sustente como for. Que viva do trabalho real pela realeza que me traz beleza e esplendor. Me desprendo de toda dor. Rodopio em volta do fogo como sinal de louvor.

Queimo arquivos dos que me fizeram arder em lágrimas, queimo arquivo dos que não têm coragem de se manifestar, queimo os vínculos com os que pensam me ter numa prateleira, queimo as fantasias que insistem em não se realizar. Queimo cada um dos animais que machucaram meu espírito e corpo, queimo as lembranças dos que me amaldiçoaram, queimo as correntes que nos mantiveram enjaulados, queimo todos os pedidos que fiz e que não foram realizados.

Manifesto.

Entro no fogo porque sou feita de fogo, porque de fogo vivo, porque de fogo viverei.

 

 

Essa necessidade confusa de afirmar vida cansa os corpos. O cosmos oferece de tudo, mas os teimosos insistem em estender as mãos apenas para pegar mais do mesmo. Reclamam do mesmo e? E fazem tudo igual se dizendo estarem fazendo algo diferente. Não é mais questão de aprender ou não uma lição, a questão é entender e gerar movimentação. Fora da zona de conforto, isso ficou claro, agora, por que insistir em começar o dia no escuro? Não sei. “Dorme mais um pouco.”
Imagina…
sim, sabemos, o sol não dorme, o sol é para todos, o sol é astro rei, o sol é nutrição e… ainda assim, silenciosamente, comemos uns aos outros. Definitivamente ainda não entendemos a abundância, somos muito mais poetas do que seres de luz. Ainda agimos na calada da madrugada, ainda expressamos angustias, raiva, medos e frustrações nos sonhos, ainda somos os mesmos que vivem como os nossos pais. Não quero falar de padrões, de patrões, de alusões, não quero falar nada sobre o que passou nem sobre o que virá. A linearidade do tempo só existe pros que não saem do lugar. Saia, não só com o corpo, não com a mente, não com as emoções, saia com o espírito, saia pra cumprir sua missão.
Olha pra mim e entende que tudo que você chama de nome ruim, de apego e incompreensão eu chamo movimentação. Eu busco e crio estrutura, eu crio ninho ponderando vento, chuva, temperatura. Sol. É no calor do ninho que vislumbro, planejo, ensaio, repito e ajo os meus vôos.
Não adianta me falar sobre respeito, não adianta me falar sobre realidades e verdades, não tem função concreta falar de amor, seria o mesmo que falar de dinheiro pra você… não quero mais trabalhar com dívidas. Sim, a palavra é trabalho. Eu quero e preciso trabalhar. Esse é meu ângulo, por ele me oriento. Tenho metas a alcançar e quanto antes me libertar melhor.
Não fiz nada errado, não peguei nada de ninguém, não deixei nada nem ninguém, apenas escolhi navegar pelo mar que me cabe navegar. Como você preciso dar ao meu espirito a oportunidade de cumprir minha missão. Assim sendo chega de repetição. Sigamos rumo a imensidão.

Colchão frio. Os olhos molhados se contorcem em busca de memórias mornas. Macarronada na cama, um chá ou um banho de banheira a três. Um pouco do calor de uma única vela na cabeceira, o som das vacas passando no terreno ao lado, o latido dos cachorros ou os miados dos nossos gatos. Queria esquentar os pés nas suas costas e queria sentir de novo o vislumbre da eternidade. Uma noite de sono tranquila e de silêncio… até o primeiro galo ou filho despertar. Simplicidade e só.

entre o tempo

agosto 2016
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